23 setembro 2014

(2ª Parte) - Contribuição para um PLANO ESTRATÉGICO para PORTUGAL

Mas como dizia, na 1ª parte, a Europa de 1945 acabava de atravessar uma guerra devastadora, travada no seio do seu território, que tinha provocado milhões de mortos. Mort...os, sobretudo, de jovens por força das circunstâncias da própria composição das forças armadas de qualquer país. Na realidade foram sobretudo jovens entre os 18 e os 30 anos, portanto na força da vida, que mais intervieram e sofreram com ela.
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A opinião pública, os pensadores e os decisores políticos sentiam que algo tinha que ser feito para que se pudesse alcançar uma paz duradoura, no velho continente. Aliás, essa necessidade já tinha sido identificada e sentida no desenrolar e, sobretudo, no desfecho da 1ª grande guerra; essa que todos desejavam que tivesse sido “a última guerra” dada a destruição que tinha causado.
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Para além do factor humano, com sequelas nas décadas seguintes, a economia sofreu transformações derivadas da necessidade de sustentar o esforço de guerra. Estava assente, quase que exclusivamente, na produção de bens essenciais ao suporte das forças armadas, das forças em presença. Os recursos financeiros aplicados neste esforço deixaram os principais países europeus em situações muito debilitadas.
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Sob o ponto de vista social, a sociedade europeia estava naturalmente em crise. Quase todas as famílias tinham perdido alguém. A Europa tinha atravessado um período de seis anos de extrema violência física e moral, o que provocou uma sensação real de instabilidade, de insegurança e de incerteza, exceptuando os países da Península Ibérica – Portugal e Espanha e ainda a Suíça pois a guerra militar não chegou a acontecer nestes países. Por isso a sociedade não foi tão afectada; no entanto a falta de todo o género de bens fez-se sentir, dificultando a vida do quotidiano.

Mas a restante Europa foi uma sociedade sujeita a uma longa pressão psicológica, provocada por uma necessidade de sobrevivência física, não apenas derivada do factor militar, mas também da escassez de alimentos, de vestuário, calçado, medicamentos e outros bens de primeira necessidade, necessários à vida e à sua manutenção.
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Ora este cenário deixou nas mentes a necessidade, muito acentuada, de mudança para um cenário de paz.
Em apenas 31 anos a Europa tinha atravessado duas guerras devastadoras - 1ª Grande Guerra ou 1ª Guerra Mundial – 1914-1918; 2ª Grande Guerra ou 2ª Guerra Mundial – 1939-1945. Praticamente uma geração tinha suportado ambas. Na verdade todos aqueles que nasceram em finais do século XIX e morreram em meados do século XX, estavam nessas condições.
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Se analisarmos as datas de nascimento, e de desaparecimento físico, de todos os iniciadores do processo, moderno, de construção europeia, verificamos que estão todos nessas condições.
Vejamos:
O Conde Coudenhove de Kalergi, nascido em 1859, austrohúngaro, Aristide Briand, francês, natural de Nantes, nasceu em 26 de Março de 1862, Jean Monnet (1888-1979) francês, Joseph Retinger polaco, nasceu em Cracóvia em Abril de 1888, Konrad Adenauer (1876-1967) nasceu em Colónia, na então Prússia, Alcide de Gasperi (1881-1954) – italiano, Robert Schuman (1886-1963) nasceu em Clausen, no Luxemburgo, Paul Van Zeeland (1893-1973) foi primeiro-ministro da Bélgica, Paul Henri Spaak (1899-1972) nasceu em Bruxelas, Altiero Spinelli, (1907-1986) – italiano, Denis de Rougemont (1906-1985) – francês , Alexandre Marc de seu nome verdadeiro Aleksandr Markovitch Lipiansky nasceu em Odessa, na Rússia em Junho de 1904, Winston Churchill – inglês, General Charles deGaulle – francês, e tantos outros
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E isso é útil para percebermos que, mesmo as ideias que nos parecem mais absurdas, mesmos essas, revelam que, acima de tudo, essa geração queria chegar a um concerto de vontades que lhes proporcionasse uma paz duradoura. Tudo o mais tinha uma importância menor.
No final da guerra a produção de bens civis estava desorganizada e a sua distribuição defeituosa, senão mesmo quebrada. Havia praticamente falta de tudo. Os alimentos eram racionados, bem como todos os outros bens nomeadamente combustíveis, calçado, etc.
Racionamento significa que as pessoas só podiam comprar determinada quantidade de bens por dia, ou por mês, mesmo que tivessem dinheiro para comprar mais. Os Governos queriam assegurar-se de que tudo o que fosse produzido, de bens essenciais, chegaria ao maior número possível de pessoas. Produzia-se genericamente pouco para as necessidades. Ou seja, era uma situação em que havia muita procura, e muito pouca oferta, para tudo em geral.
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1.4 - Consequências ideológicas e de partilha do poder mundial
Entre 1945 e 1947 ainda houve uma tentativa de perpetuar a solidariedade entre os aliados da guerra – os EUA/GB e a Rússia. Queriam regularizar as questões levantadas pelo conflito e sobretudo garantir a paz mundial, através da criação de um organismo internacional. A aliança entre os Estados Unidos e a Rússia permitia a resolução de alguns problemas, mas a muito curto prazo produziu-se um clima de desconfiança entre eles.

O presidente americano Roosevelt e em seguida o seu sucessor Truman delinearam o que seria a Nova Ordem Mundial.
Baseada em instituições:
- a ONU estaria no vértice dessa construção, e estaria destinada a ser o seu pilar político.
- O Pilar Financeiro seria corporizado pelas instituições saídas de Bretton Woods – FMI, e Banco Mundial, e assentaria num sistema de câmbios fixos e na convertibilidade entre as várias moedas internacionais.
- O pilar comercial seria gerido pelo GATT, surgido na sequência da Conferência de Havana de 1947, actualmente institucionalizado sob a forma da OMC - Organização Mundial do Comércio.
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Em 1 de Janeiro de 1942, Churchill e Roosevelt tinham assinado uma declaração nos termos da qual se comprometiam a criar, logo que a guerra acabasse, um sistema de paz e segurança.
Os três grandes do final da guerra - os americanos, os russos e os ingleses - decidiram realizar uma conferência, em Abril - Junho de 1945, para constituírem a Organização das Nações Unidas, o que veio a acontecer com a assinatura da Carta de S. Francisco, ratificada por 50 Estados em Junho de 1945.
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A organização daí resultante, a ONU – Organização das Nações Unidas, foi objecto de alterações introduzidas em Yalta, em que foi desbloqueada a situação do impasse criado pela obrigatoriedade de unanimidade.
E onde foi criado o directório das grandes potências, que agrupadas no Conselho de Segurança, disporiam do direito de veto.
Este directório era constituído pela China, Estados Unidos, França, União Soviética e Reino Unido, situação que ainda hoje se mantém.
A organização dispunha ainda da Assembleia Geral que seria o fórum mundial de discussão dos problemas dos Estados, limitada nas suas decisões apenas pelos membros do referido directório.
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O quadro geral da hierarquia do Sistema Internacional mudou. Entre os países europeus, apenas a França e o Reino Unido tinham conservado o estatuto de grandes potências, embora já sem o correspondente poder e prestígio que tinham mantido no período anterior.
- A França, porque tinha sido ocupada e derrotada pelos Alemães. Como tal, não foi parte nas Conferências de Yalta e Potsdam, onde muito de importante sobre o futuro da Europa e do Mundo foi decidido. A sua qualidade de membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e de potência ocupante de parte do território alemão dava-lhe ainda alguma importância, mas não evitou que face às suas dificuldades económicas e à fraqueza das suas forças armadas tivesse que moldar, a contragosto, a sua política externa à dos Estados Unidos.
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- O Reino Unido ao ser parte do exército vitorioso, saiu do conflito com grande prestígio, embora exausto económica e financeiramente devido ao esforço de guerra.
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- A Alemanha perdeu a guerra e saiu desta contenda enfraquecida, dividida e ocupada. Claramente saiu como Estado de soberania limitada, ao não lhe ser permitido a manutenção e o rearmamento das suas Forças Armadas, o que afectou parte da sua soberania, o “ius belli”. O que, aliás, era compreensível.
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- A Rússia saiu deste confronto, como a única grande Potência do continente Europeu. Embora debilitada pela perda de cerca de 20 milhões de pessoas resultantes das invasões do exército alemão, pode dizer-se que ganhou a guerra no leste europeu, libertando-o da ocupação alemã. Ficou como potência ocupante de parte significativa da Alemanha e do Leste Europeu. Membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, viu a sua importância internacional ganhar um relevo que até há algum tempo não tinha.
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Os EUA saíram desta guerra mais ricos, dado os contínuos fornecimentos que fizeram à Europa dos mais diversos materiais.
No final da 2ª guerra o PIB americano valia cerca de 50% do PIB mundial. Saíram também como uma grande Potência capaz de intervir militarmente, em qualquer parte do Mundo.
As tropas dos Estados Unidos e do Reino Unido chegaram à Alemanha em Abril de 1945, tendo-se encontrado com as da URSS no rio Elba.
Um pouco mais tarde, em 2 de Maio, as tropas da União Soviética chegavam a Berlim.
Os aliados de ontem, por conveniência mas contranatura, do ponto de vista ideológico, começavam a dar sinais de que as suas divergências reapareceriam, agora que estava vencido o inimigo comum.
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As divergências eram reais. Inclusivamente, a URSS tinha celebrado no início da Guerra, um Pacto de não-agressão com a Alemanha de Hitler – O Pacto Ribbentrop-Molotov.
A este Pacto foi acrescentado um Protocolo, que no seu Art.º1º fixava as zonas de influência: a URSS ficaria com a Finlândia, Letónia e Estónia, enquanto a Lituânia ficaria para a Alemanha. Na Polónia era metade para cada lado – o Sul para a Alemanha e o Norte para a URSS que ficaria ainda com a Bessarábia.

Essas divergências, sobretudo do campo militar, mas também de carácter ideológico, dariam origem a um período que ficou conhecido como o período da “Guerra Fria”.
O Confronto entre o Socialismo/Comunismo e o Capitalismo.
A luta Leste/Oeste foi fruto de todos estes episódios e medidas.
Resumindo, as atitudes principais de cada bloco podem-se descrever como principais as seguintes:
• Pelo Bloco Ocidental é lançado o Plano Marshall, a Doutrina de Contenção, a criação da RFA e a Organização do Tratado do Atlântico Norte.
• O Bloco de Leste, liderado pela URSS, que adquire o estatuto de potência nuclear, cria o Pacto de Varsóvia e o Comecon.
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Instalou-se a Guerra Fria que se estendeu à Ásia, continente que buscava uma progressiva independência face às potências.
A ocupação Japonesa, que declarou uma política anti-ocidental durante a 2ª guerra, trouxe algumas consequências, nomeadamente o descrédito das potências ocidentais que a seguir à guerra tiveram grandes dificuldades em reganhar a zona.
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A França envolveu-se na guerra da Indochina; em 1947.
Em 1954 foi forçada a retirar-se depois da derrota de Dien-Bien-Phu pelos Tratados de Genebra, após os quais o Vietname fica divido em dois.
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O Reino Unido foi compelido a abdicar da Índia;
Ao mesmo tempo começava na China a guerra civil que opôs Chiang-Kai-Chek aos comunistas.
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Com a vitória destes, ¼ da humanidade passava a viver sob regimes comunistas, o que era grave para o ocidente.
Com a vitória de Mao Tsé-Tung o ocidente perde a sua influência na China e a partir daí o Ocidente teve sérias dificuldades em manter a sua influência na zona asiática.

O Mundo Eurocêntrico, posto em causa no final da 1ª grande guerra sofreu mais um rude golpe.
Situação que se agravou nos decénios seguintes.
Portugal saiu relativamente incólume desta situação, mas não pôde evitar muitos dos acontecimentos subsequentes, como adiante veremos.
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(CONTINUA)
Melhores cumprimentos
Miguel Mattos Chaves
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