30 outubro 2016

Quem nos trouxe a Crise Financeira?

EDITORIAL – 25-10-2016 –
Semanário “O Diabo”
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Quem nos trouxe a Crise Financeira?
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Resumirei esta questão de uma forma o mais simples possível, despida de tecnicidades e academismos, para que seja entendida no essencial.
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Em meados da década de 1980, dada a moda vigente, difundida pela “escola” liberal de Chicago, onde pontificavam Alain Greenspan e outros, de se implantar um modelo de sociedade nunca experimentado na sua plenitude, surgiu um movimento de liberalização dos Mercados Financeiros (Bolsas, Bancos, Sociedades Financeiras de Investimento, etc.).
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Por tal facto, este "mercado" ficou sem Regulamentação apertada, como até aí, e passou a usufruir de um poder excessivo. Isto por culpa do Poder Político, que se demitiu de supervisionar o sistema.
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E desde aí, até 2008, andou-se a "jogar" com produtos financeiros intangíveis e artificiais que só geram riqueza ou perdas para quem os compra e vende, não gerando directamente nenhuma riqueza para a economia real das Nações.
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A esses produtos, com conteúdos diversos, deu-se o nome de Derivados, Futuros, Obrigações, etc.
Dando o nome às coisas: apenas “papel” que baseou o seu valor na Confiança dos seus compradores. Isto é, tudo se baseou em que as pessoas acreditavam que esses “papéis” valiam o que diziam. E essa “confiança” foi sendo vendida às pessoas pelos Bancos e outras entidades financeiras.
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E estes andaram a jogar com os mesmos, valorizando-os ou desvalorizando-os, segundo os seus interesses de cada momento e o interesse de quem os emitia.
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Com estas práticas baseadas em "jogo" puro e duro entre a oferta e a procura de bens intangíveis, neste caso puramente artificiais, triliões de dólares ou euros desviaram-se do investimento reprodutivo, que cria empregos e riqueza, para as “apostas” na subida ou descida dos mesmos.
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Os mais ingénuos e incautos, as pessoas normais que acreditaram nos “conselheiros” dos bancos, perderam.
Os que sabiam o que andavam a fazer e dominavam o “sistema”, na sua maior parte, mas mesmo assim nem todos, ganharam.
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Ora é sabido que o dinheiro não é infinito. Se astronómicas somas foram desviadas para este “mercado”, é evidente que teriam que começar a faltar (ou a diminuir drasticamente) capitais para investir na indústria, no comércio, na agricultura e nas pescas, que são as fontes mais seguras de criação de empregos estáveis e de enriquecimento das sociedades, no seu conjunto.
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Era por demais evidente que tal “jogo” teria os seus dias contados; que às tantas, algures no tempo, um ou mais do lado dos ditos “peritos” iria perder. E veio a falência do Leman Brothers, um enorme banco americano, que arrastou outros bancos e sociedades financeiras, na sua queda.
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A partir daí, a tal Confiança desapareceu.
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Em resultado disso, os Bancos ficaram com “papel”, a que chamavam pomposamente “produtos financeiros”, que passaram de repente a valer menos 50% do que diziam, ou mesmo que passaram a valer zero.
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Ora os anteriores valores estavam inscritos nas suas contas. Por exemplo, os que valiam 100 euros/dólares, passaram a valer 50 ou mesmo zero.
Esta situação provocou a deterioração das contas e balanços dos bancos e restantes agentes deste mercado.
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E quando se esperava uma reacção forte e decidida dos Poderes Políticos sobre as fraudes, abusos e artificialidades cometidas pelo sistema, eis que só os Estados Unidos tomaram algumas destas medidas, e mesmo assim não todas as que deveriam ter tomado.
Resultado: os bancos, na sua esmagadora maioria, tiveram que ser “recapitalizados”.
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Ora só precisa de ser recapitalizado quem perdeu capital. De onde vem o capital dos bancos? Dos indivíduos, ou das empresas. Ou seja, o nosso dinheiro.
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Para além desta situação, o Poder Político, desde meados da década de 1990, dado o dinheiro fácil assim angariado pela Banca, e os baixos juros praticados, passou a pedir empréstimos ao sistema, de forma pouco prudente e consciente, para tudo e para nada (rotundas, fontanários, pavilhões gimnodesportivos, auto-estradas, etc.) sem cuidar do futuro.
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Isto sem fazer o que deveria ter feito: fomentar a Economia real, em apoio às empresas, a novas empresas, à indústria, às pescas, à agricultura.
Isto a troco da conquista dos votos das populações que queriam conquistar.
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E chegámos aonde chegámos, não só em Portugal, como na maioria dos países ocidentais.
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É preciso sair desta situação. Mas infelizmente não vejo ninguém, nem cá, nem na União Europeia, com envergadura de Estadista, que tenha a capacidade e vontade política e técnica para modificar esta situação e evitar que ela se repita.
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Mas como a esperança é a última a morrer, resta-me mantê-la.
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matos.chaves@gmail.com
Melhores cumprimentos
Miguel Mattos Chaves
 
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