20 fevereiro 2014

Artigo "Gazeta das Caldas"



Mattos Chaves defendeu um retorno ao Atlântico para a economia portuguesa

-> Publicado a 12 de Dezembro de 2013 . Na categoria: DestaqueEconomiaPainel . Seja o primeiro a comentar este artigo.
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Miguel de Mattos Chaves, gestor, investigador e consultor, que nos finais da década de 90 foi administrador da Secla, foi convidado pelo Rotary Clube das Caldas para uma palestra sobre a posição portuguesa na União Europeia e os cenários para o futuro, tema que serviu de base à sua tese de Doutoramento.
O orador acredita que a entrada no euro prejudicou largamente a economia portuguesa e defendeu a sua saída, embora não de forma abrupta. Defendeu também que o país deve voltar a aproveitar a sua posição estratégica no Atlântico para as trocas comerciais com África, Brasil e Estados Unidos.

Miguel Mattos Chaves referiu que os catastrofistas defendem que o problema na relação entre Portugal e a restante União Europeia é o nosso país ser excêntrico ao centro de decisões. O orador defende que o problema é outro: no centro da Europa há centenas de milhões de consumidores, enquanto Portugal tem como único vizinho Espanha, o que condiciona bastante as nossas trocas comerciais com a Europa.
“D. João II percebeu isso na altura dos Descobrimentos e viu que, em termos atlânticos, Portugal é o centro do mundo”, recordou, defendendo que a solução para a crise está novamente aí.
“É preciso diversificar as nossas dependências”, reatando o triângulo com os países africanos e o Brasil, e retomar os acordos preferenciais com os Estados Unidos que acabaram quando integrámos a UE. Miguel Mattos Chaves recorda que tínhamos taxas muito baixas para exportar os nossos produtos que, quando cessaram, retiraram competitividade à indústria portuguesa.
Defendeu ainda que a CPLP “tem que evoluir para uma cooperação industrial, económica e de defesa, aproveitando um oceano que fala a mesma língua dos dois lados”, aproximando-se do que é a Commonwealth para os países anglo-saxónicos.
Miguel Mattos Chaves disse ainda que a adesão ao Euro foi um grande erro. “A nossa adesão foi mal negociada por questões de política interna”, disse, acrescentando que a taxa de câmbio utilizada foi completamente artificial. “As pessoas pensavam que o dólar valia 25 escudos, quando valia 10 vezes mais”.
O investigador observou que a Alemanha, obrigada a adoptar o Euro como condição para a reunificação, fixou a taxa de forma a desvalorizar o marco, passando a ter uma economia forte e uma moeda fraca, criando excedentes.
Em Portugal deu-se o inverso, uma economia frágil com uma moeda forte. “Em vez de construir estradas devia-se ter reforçado a agricultura e a indústria, para compensar o ganho de valor artificial, provocado pela nova moeda, com a valorização dos produtos”, explicou.
Miguel Mattos Chaves defende, por isso, a saída do Euro, que não pode ser nem breve, nem abrupta. “Temos que voltar à ‘serpente monetária’ onde estão outros países da UE, que têm um intervalo de variação cambial de +/- 15%”, afirmou, lembrando que a perda de poder de compra com a entrada no Euro foi muito significativa e com a saída nesta altura da moeda única voltaria a sê-lo.

Orgulhosamente sós é um mito

Antes de iniciar a palestra sobre o tema principal, Miguel Mattos Chaves fez uma introdução sobre o processo que conduziu à criação da união europeia, demonstrando que Portugal esteve presente em todos os passos, muito antes da revolução de 74.
O académico demonstrou que o Estado português se manteve activo na construção político-económica da Europa, procurando aproveitar as oportunidades que daí advinham. Esteve presente na reunião informal de Haia, de onde saíram os pilares da formação da OSCE – mais tarde OCDE – e da CEE.
Integrou depois a EFTA e negociou, desde 1962, a entrada na CEE, tendo alcançado em 1972 o primeiro acordo de trocas comerciais com os países desta comunidade. Acordo que permitiu que o processo de integração, assinado em 1985, fosse concluído com maior celeridade.
“Portugal do pós-guerra não esteve isolado politicamente, é um mito se criou”, defendeu.
Depois de 74, na altura do PREC, Portugal fez um pedido de ajuda à CEE e em 76 foi firmado um protocolo adicional e financeiro e no ano seguinte foi feito o pedido de adesão formal que conduziu à integração em 85.

Joel Ribeiro
jribeiro@gazetacaldas.com
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