28 janeiro 2015

e no início foi assim ... a BASE das LAJES

No início foi assim…
PORTUGAL, os EUA, a NATO e as LAJES

Muito se tem escrito sobre a atitude dos EUA face à questão da Base das Lajes nos Açores.
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Porque me faz um pouco de impressão que tudo esteja a ser discutido sem contar aos Portugueses o princípio desta relação económico-militar, aqui deixo a minha contribuição, embora necessáriamente resumida.

E tudo começa com a 2ª Guerra Mundial e sua sequência:
– O Doutor Salazar, verificou que o centro do mundo se estava a deslocar para o atlântico. Em discurso proferido em 25 de Novembro de 1947, na Assembleia Nacional nota que dadas as posições dos europeus no conflito resultou “o esmagamento da Alemanha que deixou de ser uma força produtora e um factor de equilíbrio defensivo,” dando origem à “inevitabilidade do avanço russo até ao coração da Europa”.

“Históricamente o germano tem sido fronteiro da Europa em face do eslavo” mas “a Rússia, czarista ou soviética, verá o problema em sentido inverso” e não deixará de tentar “enfraquecer o poder alemão e aumentar os espaços de resistência entre a União Soviética e a futura Alemanha”.

E mais adiante, depois de vaticinar que a Europa estaria condenada a viver anos em permanente estado de alerta e sobressalto, refere que o centro de gravidade da política mundial se deslocou para oeste e assim as decisões já não poderiam ser apenas europeias, mas sim euro-americanas.

Ao pedir apoio ao Governo de Londres para o rearmamento maciço das Forças Armadas Portuguesas, recebeu deste uma resposta que confirmava essa deslocação do poder real, pois o Reino Unido disse a Portugal que não estava em condições de satisfazer essa nossa pretensão, pelo que deveria esse pedido ser dirigido aos Estados Unidos da América.

A BASE das LAJES
Estes consideravam a Base das Lajes, nos Açores, como essencial para a defesa avançada do seu território e fundamental para apoio da defesa do mundo livre, dada a sua posição estratégica no meio do Atlântico, entre a Europa e a América.

Portugal, tinha cedido as bases dos Açores (Lajes e Stª Maria), à Inglaterra, de que os EUA também usufruíram, durante a 2ª guerra.
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Mas o Governo Português queria, naturalmente, finda a guerra, reavê-las.
Entretanto o governo britânico comunicou a Lisboa estar pronto a dar cumprimento aos acordos firmados e a abandonar os Açores.

Os EUA
Mas os EUA tinham outros planos.
Queriam negociar uma aliança tripartida entre os EUA - Inglaterra e Portugal para a defesa de todo o oceano Atlântico e pediram a Londres que suspendesse qualquer retirada da base e que não fizesse mais qualquer comunicação a Lisboa, nesse sentido.

Após várias trocas de correspondência entre Washington e Londres, com o Governo de Sua Majestade a defender as posições presumíveis de desagrado do governo português, que entretanto se tinha mantido de fora desta polémica entre os dois países, ambos pensam e finalmente em 30 de Maio de 1946 é celebrado um Acordo entre Portugal, Inglaterra e Estados Unidos pelo qual as bases de Santa Maria e das Lajes são devolvidas à administração portuguesa em 3 de Junho do mesmo ano.

Inglaterra e EUA empenham-se em seguida para que Portugal entre nas Nações Unidas. O que não conseguem por via do veto da União Soviética, só o vindo a conseguir em 1956.

NATO
Entretanto, Portugal recebe o convite formal dos EUA e do Reino Unido para entrar na NATO, como membro fundador.
Este convite foi apoiado por todos os restantes futuros membros, sem qualquer excepção.

Esta questão foi discutida amplamente nos círculos governamentais portugueses.
Desta discussão resultou a aprovação da entrada de Portugal, na organização.
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No entanto, Portugal teve de se defrontar com uma dificuldade inesperada dado que Madrid, de facto isolada diplomaticamente, tinha feito saber a Lisboa que via com desagrado a adesão de Portugal à organização.
O argumento baseava-se em que as relações bilaterais seriam afectadas, uma vez que a adesão de Portugal à NATO iria contrariar o estabelecido no Pacto Peninsular. Portugal refutou essa posição da Espanha.
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O debate interno português concluiu que, perante o cenário internacional da altura, Portugal não podia ficar de fora da organização.
E assim Portugal esteve presente na assinatura, em Washington do Pacto do Atlântico tendo sido representado no acto pelo seu Ministro dos Negócios Estrangeiros Dr. Caeiro da Matta.
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Face a esta opção foi definido um plano de cooperação militar, do qual o país colheu alguns frutos, nomeadamente em equipamento e no apoio a estágios, nos Estados Unidos, para os oficiais portugueses.

Estes oficiais ajudaram a criar ligações mais fortes com esse país.
Formou-se, por força destes acordos, a denominada “geração militar NATO” a partir de 1958, constituída por oficiais que foram dotados de um nível de conhecimentos superior, sobretudo nas áreas dos métodos organizacionais e na área da tecnologia militar.
Conhecimentos que tinham adquirido nas suas frequentes visitas aos Estados Unidos e aos outros países membros da organização.
Criou-se nesta altura a Brigada de Santa Margarida, dotada de equipamentos fornecidos pelos países aliados.
Esta brigada estava destinada a intervir, no âmbito da organização, nas áreas geográficas definidas pela Aliança Atlântica.

E assim se iniciou uma cooperação mais estreita entre os EUA e Portugal no âmbito bilateral, envolvendo as Bases dos Açores, em que o primeiro país sempre teve comportamentos mais que duvidosos face a Portugal.

Os interesses estratégicos dos EUA estão-se a desviar para o Oceano Pacífico, passando o Atlântico a merecer menos atenção da sua parte.
Por este facto e dada a maior autonomia tecnológica da aviação de guerra, os Açores perderam, pelo menos para já, o seu anterior interesse estratégico.
Por isso os EUA querem reduzir ou eliminar mesmo a sua presença.

Mais uma vez: - “as nações não têm amigos … defendem interesses”…
Os EUA percebem isso muito bem;

Na 2ª República, o Governo de Portugal tinha disso uma noção muito clara;
Na 3ª República, que aconteceu?
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Melhores cumprimentos
Miguel Mattos Chaves
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