26 março 2017

O Xadrez da Política Internacional em mudança...


Uma união reforçada, fulcro do poder mundial

Dentre os vários acontecimentos mundiais, na minha opinião três dominam, por levantarem questões importantes que poderão ditar grandes mudanças no paradigma da vida dos cidadãos, pelo menos nos do mundo ocidental.

Refiro-me, naturalmente, ao cada vez mais certo reforço do eixo-Londres-Washington, à questão da violência crescente no Brasil, que pode ditar mudanças drásticas no cenário político deste grande país, e também à situação de descontentamento crescente, por parte das populações de vários países na União Europeia.

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No primeiro caso, com a saída, agora inevitável, do Reino Unido da União Europeia (a menos que a Câmara dos Lordes do Reino Unido provoque uma crise institucional e política, que não se prevê), e com a vontade política expressa pela nova administração dos Estados Unidos, é já mais do que claro que a união que sempre existiu entre estes dois poderosos países se irá intensificar e aprofundar.

São dois países económica e financeiramente poderosos (têm no seu seio duas das mais activas e poderosas Bolsas Mundiais – Nova Iorque e Londres), ambos fazem parte do Conselho de Segurança da ONU, ambos têm Forças Armadas modernas e bem equipadas, ambos são potências nucleares e ambos exercem influência política e económica em várias partes do globo, embora a predominância nestes factores pertença aos EUA.

Face a estes dois países juntos, só eventualmente a China poderá aspirar a conquistar alguma paridade, ainda que apenas no médio ou mesmo no longo prazo, dadas as suas debilidades. Mas por enquanto o seu papel continua a ser predominantemente regional, ainda que tenha assento também no Conselho de Segurança da ONU e tenha conquistado algum papel nalgumas facetas do comércio internacional, de que se tem aproveitado com algum sucesso, mas não dando sinais evidentes de pretender aspirar, pelo menos por enquanto, a expandir a sua influência e poder no Mundo, dados os custos que um tal posicionamento implicaria.

Do mesmo modo a Rússia, outro “player” internacional, tem um papel igualmente importante, mas também iminentemente regional, se considerado o conjunto dos factores do poder mundial, e não parece aspirar a mais, pelo menos no curto prazo. Quer proteger a sua influência no “back yard”, nomeadamente nos países que consigo fazem fronteira e na zona do Médio Oriente e pouco mais.

Ambos, China e Rússia, têm muitas e sérias debilidades internas, demasiado importantes e demasiado onerosas de resolver, para que possam pretender projectar a sua influência e poder para muito mais pontos do globo, que os já descritos.

Resta assim, como fonte predominante do Poder Mundial, o eixo Londres-Washington que, pela sua riqueza e capacidade de projectar poder efectivo, tenderá a ter um poder de atracção muito grande sobre outros países. Começa já a ser claro, e esta perspectiva tem contribuído para animar a economia e as finanças dos dois países.

Na verdade as valorizações bolsistas em ambos os países estão a atingir valores e a estabelecer recordes absolutos. As perspectivas de um novo acordo entre ambos, a par das políticas económicas já anunciadas por May e por Trump, estão a gerar uma onda de optimismo nos empresários destes dois países, passados que foram alguns receios iniciais.

Veremos dentro de um ano os resultados desta reaproximação, agora em novos moldes. Uma coisa é certa: a Ordem Mundial está a mudar, e o pêndulo do poder inclina-se claramente a favor deste potente eixo geopolítico, situado no Atlântico Norte.

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Uma outra questão, mas de sinal contrário, tem a ver com a violência crescente num dos países da Lusofonia, o Brasil. Esta crise tem, em si mesma, o potencial de poder levar a mudanças internas no que se refere à configuração do Poder.

É bom não esquecer que neste país, em particular, mas na América do Sul, em geral, já estiveram na moda “ditaduras militares” que dominaram o continente. Ora é com alguma preocupação que se observa a crescente, e aparentemente imparável, auto-descredibilização da classe política, assolada por inúmeros casos de corrupção grave, atentados ao poder judicial e incompetência funcional, factores que têm vindo a degenerar em desordem e insegurança nas ruas de várias cidades do país, tendo provocado já várias dezenas de mortes.

Ora sabe-se, pela História, que tal situação é “o caldo de cultura” natural para que seja a população a pedir, mais cedo ou mais tarde, a intervenção das Forças Armadas para restaurarem a Paz e a tranquilidade e para reporem a ordem.

Como não se antevê, pelo menos de momento, nenhuma personalidade política que reúna em seu redor um consenso tal que lhe permita transformar-se num catalisador de vontades do país; como muito menos se antevê que qualquer das formações políticas tenha ainda a credibilidade para o poder fazer, restam poucas saídas de organização de Poder.

Assim, vai ser interessante seguir de perto e com muita atenção os acontecimentos no país irmão e que nos devem, como amigos, preocupar.

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Finalmente, na quarta economia da “união”, a Itália, assiste-se ao impensável até há uns meses atrás, ou seja, a um crescente mas sólido sentimento anti-moeda única, que atravessa toda a sociedade, dos jovens aos menos jovens, mulheres, homens, de praticamente todos os quadrantes políticos, verificando-se um crescente apoio às formações anti-união, como sejam os Fratelli d’Italia, o Movimento 5 estrelas e a Liga do Norte, que estão a conquistar eleitorado ao ex-Partido Socialista, agora Movimento Democratico.

São já muitos os que estão contra a moeda única. No entanto, a maioria dos italianos quer permanecer na União Europeia e não pretende seguir o exemplo britânico.

Num recente estudo do Euro-barómetro, 47% dos italianos disseram que o Euro é mau, contra 41% dos que dizem ser bom. Este factor é novo na sociedade italiana e é revelador de uma tendência crescente, pois em 2002, 79% eram a favor do Euro e agora apenas 41% ainda mantêm essa posição.

Por outro lado, o impasse criado pela demissão de Renzzi, após a sua derrota no Referendo, tem levado a algum mal-estar. A perspectiva mais comummente aceite é de que as eleições se realizem apenas no início de 2018. No entanto, vários partidos, sobretudo os da Direita, estão a exercer fortes pressões para que este acto se realize até Junho do corrente ano e não apenas no próximo ano. Recorde-se que a Itália não tem um Governo democraticamente eleito há mais de três anos, o que está a gerar uma crescente contestação nos italianos.

Por este quadro, a Itália é talvez um dos casos mais interessantes de seguir, dadas as novas interrogações que introduz na Europa e nos futuros possíveis realinhamentos.

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Por cá, é o costume dos últimos 20 anos. Impera a baixa política, sem rasgos, sem estratégia, apenas com “disputas de mercearia”, sobretudo entre os dois maiores partidos, com os pequenos a fazerem figuras ridículas, só para mostrarem aos amigos que existem. Nada de novo. Entretanto, o país vai definhando.

Para animar, mas para disfarçar as insuficiências e incompetências próprias, por cá vai agora imperando uma discussão histérica, nada racional, quando não a roçar a estupidez, acerca do que diz ou não diz Trump, sem cuidar de se analisar seriamente as suas propostas e programa político e sobretudo sem tentar prospectivar como poderemos nós aproveitar o novo eixo predominante do Poder Mundial.

Enfim, apenas o costume, a pequenez mental de uma certa classe dirigente e comunicacional, já bem conhecida de todos, e a costumeira obediência cega e canina a certos “lobbies” minoritários (mas poderosos, por terem os órgãos de comunicação na mão). E é tudo.

Enquanto isso, lá fora pensa-se e passa-se o que é realmente importante e relevante para o futuro da Humanidade e sua organização. ■
 
Melhores cumprimentos
Miguel Mattos Chaves

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